Por Guilherme Lichand

Aquecimento global é um dos temas que mais tem dominado a atenção dos principais cientistas e líderes mundiais. O desafio é enorme: convencer tantos países a incorrer em custos privados – reduzindo a emissão de gases que vêm aumentando a temperatura global e ameaçando o futuro da humanidade – em prol do benefício comum. Mas e se eu dissesse que nossos cientistas e líderes talvez estejam canalizando esforços para resolver o problema errado?

Você já ouviu falar em geo-engenharia solar? É a ideia de que poderíamos diminuir a temperatura da terra lançando deliberadamente alguns tipos de partículas na estratosfera, de modo a aumentar a refletividade da Terra.As pesquisas sobre essa alternativa ainda estão em fases iniciais. Mas já pensou se nossos cientistas e líderes se concentrassem no problema de qual a maneira mais rápida, eficiente e segura de aumentar a refletividade do planeta? Esse problema é tecnologicamente muito mais complexo, mas politicamente muito mais simples do que orquestrar a desaceleração do crescimento econômico das maiores potências do mundo. Essa mudança de foco seria um salto semântico no debate sobre as políticas necessárias para mitigar o aquecimento global.

Como tornar menos desiguais as oportunidades educacionais de qualidade também é um desses temas que captura a atenção e o imaginário coletivo. No Brasil, a discussão sobre como a tecnologia pode ajudar nesse caminho talvez necessite de um salto semântico similar. Em artigo recente, Denis Mizne (Diretor Executivo da Fundação Lemann) e Ronaldo Lemos (Co-fundador e Diretor do ITS) discutem as razões pelas quais a internet não é utilizada em todo o seu potencial pedagógico no Brasil:

“Atualmente, há inúmeras ferramentas on-line e gratuitas que deveriam ser facilmente acessadas pelos alunos: plataformas adaptativas — em que se aprende no próprio ritmo, de maneira personalizada —, sites com vídeos e jogos educacionais, aplicativos com exercícios e simulados. (…) Há muitas escolas conectadas sim, porém, a velocidade que chega até elas é baixíssima e incompatível com a velocidade que o resto do mundo demanda.”

A solução proposta pelos autores é econômica e politicamente bastante complexa. Levar conectividade de qualidade até as escolas públicas envolve a recuperação judicial da Oi, custear os cabos de fibra óptica até a última milha, construir e equipar laboratórios de informática e capacitar professores para incorporar esses conteúdos online às práticas didáticas.  Será que não existe outro caminho?

Estimamos que, hoje em dia, pelo menos um terço dos alunos de 6º e 7º anos do Ensino Fundamental e pelo menos metade daqueles de 9º ano tenham telefone celular, numa rede pública como a do Estado de São Paulo.Cada vez mais, esses celulares já são smartphone – Androids de baixo custo –, o que gera uma grande oportunidade para acessar soluções educacionais online.

O desafio é que mesmo smartphones na grande parte dos casos não estão conectados no Brasil. Aproximadamente três de quatro linhas ativas ainda são pré-pagas no país, e nós temos um dos custos de telefonia mais altos do mundo. As operadoras têm oferecido WhatsApp e Facebook sem custos para planos pré-pagos; porém, esses recursos não são suficientes para acessar o potencial pedagógico da internet que Denis Mizne e Ronaldo Lemos mencionam em seu artigo. Precisaremos de ao menos mais 15 anos até que a internet alcance no Brasil a mesma penetração que o celular já alcançou.

O salto semântico nesse contexto seria focar no problema tecnologicamente muito mais complexo, mas econômica e politicamente muito mais simples, de levar conectividade sem custos diretamente no celular desses alunos. A MGov já descobriu como fazer isso, e quer oferecer uma hora por dia de acesso aos vídeos da Khan Academy, de graça, para ao menos 10 mil alunos de escolas públicas brasileiras ao longo de 2017.

Levar essa solução de maneira escalável para todos aqueles que precisam é uma missão que merece a atenção dos nossos melhores cérebros. Toda criança e jovem merece oportunidades educacionais de qualidade, independentemente de suas condições iniciais. Hoje, isto está longe de ser verdade. E não temos tempo de pular uma geração inteira enquanto nos concentramos nos problemas errados.

 

Guilherme Lichand é doutor em Economia Política e Governo pela Harvard University, professor de Economia do Bem-Estar e Desenvolvimento Infantil da Universidade de Zurich, e Diretor Executivo da MGov.

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