Por Érica Casado

“Se cada homem expressar o tipo de governo capaz de ganhar o seu respeito, estamos mais próximos de conseguir formá-lo”

– Henry David Thoreau em A Desobediência Civil, de 1849.

No dia em que escrevo este texto (15 de março), inúmeras manifestações tomam o país contra a #ReformadaPrevidência. Um ato de reivindicação que é assegurado pela lei do país, mas cujas versões anteriores (de protestos) têm gerado muita repressão ( incluindo a violência física) e dividido o país.

Isto não é novidade.

“Revoltas coletivas” ou individuais são constantes no mundo político, social… Thoureau em 1849, justamente, após sua prisão pela recusa em pagar impostos como protesto pela guerra dos EUA contra o México, escreveu o clássico Desobediência Civil, onde propõe a recusa de cumprimento da lei como forma de conscientização e mudança de mundo. (Nem sua prisão, nem o seu livro, mudaram a história e hoje testemunhamos à Trump disposto a construir um muro entre os dois países, mas o livro segue inspirando muito desobediente por aí).

Graciliano Ramos, Jorge Amado, Monteiro Lobato, por exemplo, são importantes escritores que o Brasil já levou para a prisão por “desobediência civil”, seja por debater em textos “interesses nacionais” que divergiam do governo, por apoiar o comunismo, por consumir uma substância proibida… ou seja, quando tinham uma ideia divergente da estabelecida e muito claras as razões para tal.

Poderíamos seguir neste texto, regressando a outros  séculos e países e trazendo exemplos de repressão por “manifestações” de ideais de mundo diferentes do status quo, mas vamos ser mais pontuais.

O que a educação tem a  ver com isso?

Se você já acompanhou o crescimento de um bebê sabe que, diante do primeiro não ele, invariavelmente, tenta ignorá-lo e seguir adiante no seu objetivo. Se é impedido novamente, reage e com muito choro (protesto). Rapidamente, a pedagogia ensina aos pais: não ceda e este “não” vira rotina. Todos começam a aprender: “educação tem a ver com limites (ou proibições?)”. Da primeira negação a um desejo, um processo civilizatório permanente se estabelece para este ser, do universo doméstico à escola, da vida ao trabalho.  Tudo de acordo com  uma concepção de mundo estabelecida (e nem sempre reflexiva), à forma como foi educado, as leis civis regentes…

No início desta “educação”, o embate é grande, mas aos poucos, e majoritariamente, com o apoio da escola, da religião, da constituição, para ficarmos em alguns exemplos, já estamos cientes dos nossos deveres – será que também dos direitos?. Vamos deixando de fazer tantas perguntas, de acreditar que poderia ser diferente. A escola, um dos principais agentes desta transformação, curriculariza a vida (e até as perguntas permitidas) e vamos “concordando” que:

  • A boa criança é a obediente.
  • O bom aluno é o comportado e que atende ao sistema de notas escalonáveis e competitivas.
  • O bom profissional é o que trabalha sem questionar, vestindo a camisa da empresa (veja, não a própria. E assim vai dando adeus à sua individualidade).
  • O cidadão “de  bem” o que obedece às leis sem perguntar, o que paga os seus impostos em dia, mas não espera melhorias nos bens públicos por isto, o quê,  muitas vezes, repete a frase “é assim mesmo”, diante de alguma arbitrariedade do “seu governo”.

Assim, a “manutenção da ordem” vai ajudando a construir uma sociedade que nos cobra a lei, mas pouco nos ensina o seu sentido ou como poderia ser ainda melhor. Afinal, poucas são as metodologias que valorizam as perguntas em vez das respostas e o que poderia ser uma construção coletiva da norma, transforma-se em cartilha a ser seguida, punindo os que não estão de acordo.

Por outro lado, se olharmos para a história, percebemos que se tornam representativos os cidadãos que transformaram algo (o que não é possível apenas com a repetição de regras), percebemos que ideias hoje valiosíssimas foram consideradas “de maluco”, até criminosas, em outras épocas, que movimentos contra-corrente da manutenção da ordem foram importantes para a conquista de direitos que hoje a sociedade absorve como “naturais”. Para ficar no exemplo das marchas (e do mês), as mulheres, em 1909 foram às ruas pela primeira vez, para ter reconhecidos direitos com igualdade, voto etc. Faz pouco mais de 100 anos, mas, acredite, grande parte da população deve ter rotulado-as de loucas, para dizer o mínimo.

Mas se, em vez da repulsa ao novo ou discordante, a sociedade, a escola, permitisse a reflexão sobre sobre suas regras, para construir melhores caminhos. Se a pergunta fosse mais valorizada que a resposta? Se discurso divergente ensinasse?

MIT premia a desobediência

Há pouco, o MIT anunciou um prêmio para a desobediência em prol do bem comum: o MIT Media Lab Disobedience Award premiará com 250 mil dólares iniciativas, individuais ou coletivas, que busquem transformar a sociedade de forma positiva através da desobediência e  respondendo a princípios que não incluam a violência, que façam uso da criatividade, a coragem e a responsabilidade pelas próprias ações. (Aliás, o MIT tem um laboratório dedicado à desobediência e nos princípios do famoso Media Lab está  “desobediência em vez de conformismo”. )

Certamente, nomes do nosso passado, como os citados acima ou Gandhi, ou Martín Luther King, se estivessem vivos, poderiam se candidatar (sim, os desobedientes entram para a história). Mas, como estamos falando de 2017 e da necessidade de transformação da escola, quero indicar aqui um grande candidato a este reconhecimento: o movimento de secundaristas do Brasil, Ocupa Escola.

Nascido da recusa de estudantes a aceitar a reorganização escolar proposta pelo Governo de São Paulo (2015), inspirados por iniciativa similar no Chile* (2011), o movimento se fortaleceu como rede e se espalhou por vários estados do país, como luta contra a PEC 241, que limita os gastos com educação nos próximos 20 anos, contra  Reforma do Ensino Médio (que acaba de ser aprovada) e o Escola Sem Partido, entre outras inúmeras causas. No final do ano passado, 995 escolas e institutos federais, 73 campi universitários e 3 núcleos regionais de educação estavam ocupados, além da Câmara Municipal de Guarulhos**.

Basicamente, para quem não se inteirou do movimento, grupos de estudantes politizados ocupavam suas escolas, fazendo delas não um camping, mas um novo espaço de convivência e aprendizagem.

“De quem é a escola?” Com esta pergunta, desafiaram o governo.  Enquanto limpavam cozinhas, banheiros, salas e organizavam aulas abertas (com especialistas voluntários), descobriram depósitos com materiais didáticos em desuso, denunciaram mal uso do dinheiro público, conquistaram o apoio de advogados, educadores, artistas, engajados com uma nova forma de posicionamento político e educação.

O Ocupa Escola fascinou e ensinou a muitos educadores a possibilidade da autogestão, de novas formas de conteúdos, de novas configurações pedagógicas e, sobretudo, sobre os sonhos destes jovens (o que quer a juventude?). Novamente, assim como no caso de Thoureau, não importa tanto o resultado que obtiveram (embora tenham sido vitoriosos em muitos dos seus objetivos), mas a inspiração que deixaram em todos nós, a faísca da transformação de um espaço que repete há mais de 200 anos um modelo desgastado, vertical e homogeneizante.

Analisando alguns dos critérios anunciados no prêmio, o Ocupa Escola o merece por:

  1. Não violência: grupos ocuparam seus espaços escolares e, em oposição à violência que o Estado empregou em muitos momentos, restabeleceu regras de convivência e uso de forma coletiva (tinham cartazes com acordos de convivência afixados na entrada do colégio), se dedicou a nele implementar melhorias e exibiu rostos juvenis cheios de alegria por lutar por seus direitos.
  2. Criativo: usou os recursos digitais, as redes sociais, para engajar mais jovens e a sociedade civil no movimento e estabeleceu assembléias continuadas (diárias) para reinventar o cotidiano escolar, além de gerir uma rede de colaboração, de práticas pedagógicas à necessidades estruturais.
  3. Coragem: os jovens demonstraram grande resiliência. Cozinharam para si mesmos, enfrentaram a polícia, proferiram discursos em ambientes institucionalizados e majoritariamente hierarquizados, entre eles o famoso pronunciamento de Ana Júlia, de apenas 16 anos, que enfrentou deputados e emocionou todas as pessoas que realmente acreditam na escola pública ou no direito de aprender de uma pessoa. Assista ao discurso completa da estudante aqui.
  4. Responsabilidade pelas ações: tudo isto assumindo seus atos, identificando-se como movimento apartidário.

Mais, estes jovens desobedientes mostraram um caminho de “construção coletiva”, de “liberdade com consciência”, inspirando, inclusive, a inúmeros especialistas que têm se perguntado sobre o futuro da escola. Eles cresceram, fortaleceram sua rede, saíram dos protestos nas ruas para uma ocupação com proposta e, com o apoio de muitos educadores, sonharam novos currículos para estas escolas já capengas em sua tentativa de manter o sistema vigente.

Ocupa Escola, esse prêmio do MIT deveria ser de vocês. Postulem-se.

E continuem inspirando a transformação, exibam estes rostos felizes por si mesmos e a força de luta do coletivo, deixem-nos saber o que vocês querem, que escola é a ideal para vocês, com quais das regras vocês não concordam, quais são as suas propostas. Por favor, continuem acreditando que sempre é possível fazer melhor e mais justo este vasto mundo.

Para ampliar a “divergência”, recomendo as músicas:

“É Proibido Proibir”, de Caetano Veloso e Os Mutantes.

“Desordem”, dos Titãs.

“Tô [I’m]”, de Tom Zé.

“O Dia Em Que A Terra Parou”, de Raul Seixas.

“Killing In the Name”, do Rage Against The Machine.

 

Érica Casado é co-fundadora da Editacuja Editora Transmídia.

*Na Wikipédia, há um registro extenso do movimento, com inúmeras fontes. Veja aqui

**Fonte: Agência Brasil.

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