Por Érica Casado

No momento em que escrevo este texto, o terceiro PeaceHackCamp (#PHC) ocupa Mena, na Alexandria, Egito. É a terceira versão do Acampamento Internacional de Inovação para a Paz, que nasceu em 2015 no Sudão do Sul e no ano seguinte conectou o continente africano à Colômbia. O evento propõe a construção de paz por meio da convivência e intercâmbio de conhecimento entre inovadores e comunidades tradicionais.

Territórios distantes conectados pelo desafio de superar seus conflitos com saberes locais, projetando futuro com a valorização territorial, a educação, a igualdade. Uma construção coletiva mediada por metodologias globais, provenientes da missão de inovadores internacionais, que usam as tecnologias (sociais e digitais) para recriar narrativas e desenhar novos processos e projetos com as comunidades.

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Como Appiario, realizamos a edição colombiana em novembro de 2016 e, inspirada no lançamento egípcio, compartilho a experiência de construir uma rede educacional totalmente descentralizada; um evento de cocriação de formatos e gestões distintas em cada território, mas integrados pela missão de:

  1. Conhecer e explorar o contexto dos conflitos, buscando criar ações de paz que colaborem para a diminuição de desigualdades e a ampliação dos talentos e oportunidades;
  2. Conectar inovadores de distintas partes do planeta, com experiências locais de transformação mediada pelas tecnologias (sociais e digitais), às comunidades em conflito;
  3. Gerar iniciativas locais para a saúde, a educação e a comunicação, o empreendedorismo, a agricultura e o desenvolvimento sustentável de contextos diversos, desenhados coletivamente.

Gerações e saberes conectados

De Juba, capital do Sudão del Sul, passando por Salento, coração do eixo cafeeiro colombiano, até o Egito, a conexão promovida pelo #PHC rompe as barreiras geográficas e culturais. Há o fortalecimento de uma rede na qual os idiomas são diferentes, mas em que é possível se comunicar pelo compromisso de transformação dos seus contextos, compartilhando visões de mundo e ferramentas de trabalho para gerar a paz diretamente da base, no encontro de diferentes gerações e experiências para o bem comum.

02Crédito: Arbey Muñoz

O planejamento do #PHC na Colômbia foi inspirado na metodologia que criamos nos Appiarios, que se desenvolve a partir de integração de três momentos: Descoberta, explorar os territórios, projetar, gerar empatia e rede com o “outro” da própria comunidade; Experiência, conhecer ferramentas e experimentá-las em contexto; e Invenção, prototipar soluções para o entorno, respeitando as premissas de empreendedorismo social e processos educacionais.

03Crédito: Arbey Muñoz

Assim, o #PHC colombiano, foi realizado em duas etapas, acampamento locais e acampamento internacional.

Acampamentos Locais

Encontros em diferentes regiões colombianas, que têm como objetivo conhecer melhor os territórios pós-conflito e identificar desafios e vocações locais a serem explorados no encontro internacional. Nestes eventos, permeados por duas das nossas metodologias, Jinso e Narrathon, incentivamos a formação de uma rede e difundimos o #PHC, convidando líderes presentes nestas sessões para participarem em Salento. Os Acampamentos Locais foram realizados em:

  • Guaviare e Meta, regiões da Amazônia colombiana. Com o apoio do PNUD-Unesco, que mobilizou os territórios, seus líderes e empreendedores enviando posteriormente a Salento, estas delegações locais (84 pessoas).
  • Calarcá e Montenegro, Departamento de Quindío, com o apoio de instituições locais: Fundación Chichan, Montenegro e a Prefeitura de Calarcá. Destaca-se a participação de lideranças agrícolas e de turismo, delegações também presentes posteriormente em Salento.
04Narrathon – Jornada de Cocriação multiplataforma ( para o storytelling de contexto)/Crédito: Arbey Muñoz

Ativistas, educadores, makers e hackers colombianos também foram convocados e se dirigiram a Salento de forma independente. Juntaram-se a eles ainda instituições públicas e sociais, delegações locais, inovadores internacionais, moradores e empreendedores da cidade, jovens ativistas voluntários da região formando uma rede de quase 300 pessoas dispostas a se dedicar por quatro dias a projetar uma Colômbia mais pacífica.

Entre os desafios a serem solucionados estavam: a falta de água, a agricultura e o turismo sustentável, a política de drogas e reparação de vítimas, a convivência em comunidade, democratização ao acesso de bens e serviços e a cultura digital. Este foram alguns dos temas principais discutidos em sessões de desenho e criação nos quatro dias de Acampamento Internacional.

05Jinso – Jogo da Inovação Social (para prototipar soluções)/Crédito: Arbey Muñoz

Acampamento Internacional

De 20 a 24 de novembro de 2016, Salento foi o espaço de circulação e criação do #PHC, com mais de atividades divididas nos eixos:

  • Pensar: espaços de debate e exposições, em restaurantes e bares locais, sobre temas como políticas antridrogas1, cultura digital e vigilância na internet2, novas formas de empreender, valorização de culturas tradicionais através das tecnologias3;
  • Fazer: oficinas de comunicação4, desenho5, desenvolvimento e negócios7 e Espaço Kids8;
  • Colaborar: sessões de empatia9, desenvolvimento de projetos colaborativos, formação e fortalecimento de redes10;
  • Planejar e celebrar: espaços de compartilhamento de alegria, propósitos, intangíveis para gerar paz e comunidade, por meio da música11 e da arte local12 e de projetos para o futuro.
06Periodismo ciudadano y activista para la construcción de Paz/Crédito: Arbey Muñoz

Uma experiência totalmente descentralizada na qual cada grupo, composto por diferentes delegações, explorou os desafios propostos de forma prática, propositiva e com ferramentas (tecnologias digitais e sociais) que fortalecem e materializam ideias em ações. Agricultores, empreendedores locais, membros de instituições públicas, jovens e crianças reunidos com makers, empreendedores locais, designers, desenvolvedores, uma rede de Laboratórios de Inovação de nove países, para mobilizar uma rede em que o saber tradicional une-se ao conhecimento global e às inovações destacadas em diversas partes do planeta para construir uma nova narrativa para um país.

07The machine to be another – Empatia com realidade virtual/Crédito: Arbey Muñoz

Por uma educação voltada para a vida real, por redes descentralizadas que compartilham propósitos

Desafiados pela missão de realizar na Colômbia a segunda edição do PeaceHackCamp, dando continuidade à experiência africana e o testemunho de um outro território em pós-conflito*, optamos por iluminar a diversidade (de idiomas, de vivências), buscando nela mesma o ponto comum: como reinventar nosso país? Como construir uma nova narrativa para comunidades que enfrentaram guerras diferentes, mas que potencializam desafios semelhantes:  a água como direito universal, o fortalecimento da economia local (agricultura, turismo) e a geração de empreendimentos sociais, a aceitação e a valorização das suas culturas e diferenças. O #PHC se unifica neste propósito e, hoje, no Egito, também constrói propostas para uma sociedade mais justa — e feliz!

*Na África, a recente independência do Sudão do Sul frente o o Sudão do Norte, na América Latina, a Colômbia assinando um Acordo de Paz com as Farc).

08PeaceHackMena/Crédito: Arbey Muñoz

Nós, como Appiario, aceitamos esta missão pela confluência com o que acreditamos ser efetivo e transformador para a educação (e o mundo que queremos construir): estimular a geração de soluções locais e diminuir desigualdades a partir de processos de aprendizagem que reúnem comunidade, jovens, educadores, inovadores e instituições sociais e públicas, todos juntos para pensar sobre os desafios e colaborar para realizar ações, que devem ser celebradas, conquista à conquista.

Independente do contexto, é  possível aprender e transformar a partir do fortalecimento das comunidades, com a apropriação de ferramentas de desenho e desenvolvimento.

Não importa se na América Latina ou no continente africano, se em contextos rurais ou urbanos, a paz é uma sociedade justa, possível a partir das propostas de quem, efetivamente, conhece o seu contexto, com quem possui as ferramentas para materializá-las, das ações cotidianas às políticas públicas.

09Desenho de Comunidade/Crédito: Arbey Muñoz

Por isso, educar para a vida real (aplicação do conhecimento do – e para – o entorno) é um caminho inspirador para educar, no qual todos são aprendizes em uma rede que se conecta por missões comuns, mas que atuam localmente, impulsionados pelo conhecimento constante e desenvolvido pela prática.

De Juba, à Colômbia, ao Egito, diferentes Laboratórios de Inovação, reconhecidos por suas práticas inovadoras, uniram-se com os moradores locais e experimentaram o prazer de criar coletivamente, celebrando o saber compartilhado e com propósito. Na Colômbia, edições locais do #PHC estão sendo planejadas, bem como o desenvolvimento do #PeaceInABox. Esperamos que esta rede esteja cada vez mais difundida e que iniciativas como estas inspirem coletivos, comunidades, tragam as escolas, despertem, das crianças aos velhinhos, novas formas de atuar.

10PeaceHackCamp Colômbia 2016/Crédito: Arbey Muñoz

Érica Casado é co-fundadora da Editacuja Editora Transmídia.

1Por Camilo Carlos Garcia, Colombia.

2Por Geraldine de Bastión, Alemanha.

3Ricardo Ruiz, Brasil.

4Cuentos de Ifá, por Ricardo Ruiz, Brasil; Empoderamiento femenino, tecnología y libertad, por Silvana Bahia, Brasil; OratoriaLab- Comunicación Persuasiva, por David Moreno e Camilo Garcia, Colômbia.; Periodismo ciudadano y activista para la construcción de Paz, por Achol Mach y Hackim George Hackim, Canadá y Sudan del Sur; Libertad y Seguridad Digital, por Geraldine de Bastión, Alemania.

5Upcycling, por Samer Shawar, Palestina; Pensamiento de Diseño, Agua y Paz, por Natalia Lewin y Maryam Tertel, Alemania y Colombia; Diseño de Comunidad, PeacheHackCamp, por Juán Pablo Calderón, Colombia;

6Construcción de un cluster de comunidades cooperativas en Colombia, por K4os, Alemania; Gestión participativa de recursos hídricos, por Ricardo Ruiz, Brasil; Cómo construir una Impresora 3D con basura electrónica, por Brenchies Lab, Aruba y La Galería, Colombia

7Modelos de negocios sociales, por Laura Carnicelli, Finlandia; Emprendimiento Social, por Laura Carnicelli y Miguel Chaves, Brasil.

8En-Escena para niños. Espacio Kids, por Germán Restrepo, Colombia.

9The Machine To Be Another, por Daniel Gonzalez, Colombia, España.

10Sessão de prototipagem, com todos os participantes do #PHC, para a apresentação dos desafios e saberes de cada delegação e sua distribuição entre as oficinas, a fim de que as delegações estivessem presentes em todas as atividades oferecidas.

11Música para la Paz, por Channel One Sound System, Jam Inglaterra

12Inauguração realizada na Aldea de los Artesanos, com participação da comunidade e representações governamentais (Governador do Quindio, Secretário de Paz e de Agricultura do Estado, Lideranças dos Artesãos, Prefeito de Salento).

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