“Como foi a escola hoje?” – dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (IBGE) mostram que, no Brasil, são poucos os pais que fazem esta e outras perguntas sobre a vida escolar a seus filhos. De acordo com esta pesquisa, um de cada quatro pais não sabem se os filhos faltaram às aulas e metade não têm o hábito de verificar seu dever de casa.

Um estudo realizado por pesquisadores brasileiros, apoiado pelo Itaú BBA, mostra que há uma solução simples para mudar essa realidade: mensagens SMS. Ao longo de 2016, Eric Bettinger e Nina Cunha (Universidade Stanford, EUA), Guilherme Lichand (Universidade de Zurique, Suíça) e Ricardo Madeira (USP), avaliaram o impacto da tecnologia EduqMais, implementada em parceria com a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo em 286 escolas públicas.

Desenvolvido pela startup social MGov Brasil com o apoio da Fundação Lemann, o EduqMais é uma solução que utiliza SMS para engajar famílias na educação. Em 2016, ele foi utilizado por 19.300 pais ou responsáveis de alunos do 9º ano do Ensino Fundamental. Os participantes foram divididos em grupos definidos por sorteio, e cada grupo recebeu um tipo de comunicação via SMS, que variava desde informações como faltas, atrasos e entrega de tarefas até sugestões não-curriculares sobre como apoiar seus filhos em casa. As mensagens foram enviadas ao longo de 23 semanas.

Os resultados são animadores. Alunos cujos pais receberam comunicação via SMS apresentaram melhor desempenho nas disciplinas de Matemática e Língua Portuguesa e maior taxa de aprovação ao final do ano letivo. Surpreendentemente, ao menos metade do efeito se deve às sugestões de atividades não-curriculares para fazer com os filhos no ambiente familiar. Os resultados indicam que o EduqMais é cinco vezes mais custo-efetivo que qualquer outra solução educacional já avaliada de forma rigorosa no Brasil.

Projetando esses impactos sobre os resultados de proficiência e rendimento escolar que compõem o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), os pesquisadores estimam que teria sido possível aumentar o Ideb dos anos finais do Ensino Fundamental da rede estadual de São Paulo em até 0,4 ponto. Em 2015, esse aumento teria sido suficiente para que o Estado cumprisse sua meta no Ideb 2015, de 5,0 (o desempenho do Estado no Ideb dos anos finais ficou aquém da meta, em 4,7). Além disso, devido à redução da repetência em mais de três pontos percentuais, as Secretarias de Educação economizariam R$ 12,50 por real investido no produto.

Análises complementares evidenciam os mecanismos por detrás do impacto: os pais participantes do EduqMais acompanham e incentivam mais os filhos em sua vida escolar – segundo a percepção dos próprios filhos, que faltam 20% menos às aulas e valorizaram mais os comportamentos incentivados pelas mensagens.

As escolas com maior impacto projetado sobre o Ideb foram a Escola Estadual Professor Michel Antonio Alem, de Rio Claro, e a Escola Estadual Professor Gualter da Silva, de São Paulo – esta última, inclusive, que apresentou o menor índice do Ideb no Estado de São Paulo em 2015. “Os resultados mostram que há caminhos para avançarmos já no curto prazo em questões complexas que afetam o trabalho dos professores e o desempenho dos alunos, como o envolvimento dos pais e responsáveis”, aponta Denis Mizne, Diretor Executivo da Fundação Lemann. “Eles também mostram o quão importante é avaliar o impacto de iniciativas que são implementadas nas escolas”, completa.

“A maioria dos pais de escolas públicas não se envolve na vida escola de seus filhos, porque eles mesmos não tiveram um acompanhamento próximo quando frequentaram a escola. Além disso, suas preocupações com o sustento da família capturam sua atenção no dia a dia. Por esses motivos, simples lembretes para participar mais da vida escolar de seus filhos têm impactos tão relevantes”, diz Guilherme Lichand, um dos pesquisadores.

“Recebemos ofícios de diretores de escola e inúmeras mensagens de pais entusiasmados com os resultados. O EduqMais é disruptivo porque consegue fazer de maneira escalável o que as Secretarias mais inovadoras, como Goiás, já tinham percebido ser fundamental. O SMS é a tecnologia certa para alcançar todos os pais ou responsáveis, pois 9 de cada 10 domicílios brasileiros têm telefone celular, mas pelo menos metade desses telefones não é smartphone ou não está conectado sistematicamente à internet”, explica Maúna Rocha, Diretora de Operações responsável pelo EduqMais.

Pais e responsáveis concordam. “Eu não posso ir na reunião porque eu trabalho, sou diarista. Para mim fica mais fácil, eu vejo o que a professora escreve”, diz uma mãe. Outra complementa: “Me mandando a mensagem, vocês estão me estimulando a participar mais. Às vezes, no dia a dia, a gente acaba esquecendo de fazer esse tipo de coisa.”

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