Por Rodrigo Brito

Empreender em dicionários tem vários significados como fazer, tentar, colocar em movimento, dedicar-se a realizar algo significativo.

Com mais de 15 anos trabalhando com muita gente que empreende, posso dizer com certeza absoluta que empreender não é um perfil ou “dom” divino para pessoas iluminadas, mas um conjunto de habilidades que se desenvolve com o tempo e prática.

Assim como lutar karatê, surfar, cozinhar ou tocar violino, fazer cursos, ler livros e ter mentoria, ajuda. Mas empreender é algo que só se aprende fazendo.

Eu gosto de ver o “empreender” (um verbo) como uma arte, a arte de ver e fazer nascer/acontecer no mundo algo relevante para você e para outras pessoas.

Como qualquer conjunto de habilidades, empreender pode tornar-se uma arte, e é aí que o negócio (ou um negócio) começa a ficar interessante.

Habilidade e arte são coisas distintas, apesar de serem parecidas em estágios iniciais.

Tanto empreendedores como artistas têm aquela insegurança quando estão começando, seja ao manusear pelas primeiras vezes um instrumento, como nas primeiras tentativas de se produzir algo, ou nos contatos iniciais com seu mercado ou audiência.

Como toda habilidade, este medo e a insegurança inicial são vencidos pela prática e domínio crescente das técnicas ao longo do tempo e pela interação com os públicos, até compreender o que este espera e como reage.

Se no início um pintor não sabe combinar tintas em uma tela ou um músico maltrata os ouvidos de seus vizinhos, um empreendedor iniciante também fica perdido ao abordar parceiros e clientes e erra diversas vezes até acertar a mão em um produto ou serviço.

Até aqui tudo certo! Treino, conhecimento e prática ajudam os aspirantes a artistas e empreendedores a chegar a um ponto aceitável em termos técnicos.

Mas para algo ser considerado arte, não basta apenas habilidade, afinal você pode aprender a pintar quadros ou tocar um instrumento, assim como pode aprender a fazer planos de negócios, canvaspitches ou montar franquias, mas isto não faz de você um artista.

A arte, assim como empreender, é uma criação humana e o que a diferencia de um conjunto de habilidades é que ela expressa uma visão individual ou coletiva, que gera reações nas pessoas com quem tem contato. Quanto maior e melhor a reação gerada em diferentes públicos ao longo do tempo, mais impactante é a arte produzida.

Para que algo seja uma “arte” ou seja único, este algo precisa ser repleto não apenas de habilidade, mas de “personalidade”.

Eu acredito que personalidade é o que mais diferencia empreendedores de gestores. Estes são sim complementares, mas nunca substituíveis ou equivalentes.

No caso de empreendedores, a personalidade (aliada à técnica) é o que diferencia se uma cafeteria será apenas uma cafeteria ou uma Starbucks; uma indústria têxtil irá fabricar roupas ou tornar-se uma Patagônia; uma loja de cosméticos irá vender sabonetes ou virar uma The Body Shop; ou se uma empresa irá produzir motos ou Harley-Davidsons.

Personalidade vem da individualidade, representa e dissemina uma visão/mensagem e gera uma espécie de alma e diferencial que é difícil de ser reproduzido de forma original, pode apenas ser copiado.

Mas como desenvolver personalidade?

Pessoas e equipes têm personalidade (em grupos, chamamos isso de cultura”, e para desenvolvê-la precisamos estar em uma busca por algo, precisamos de muita reflexão, precisamos querer expressar algo e disseminar uma mensagem, e precisamos de repertório (de experiências, conhecimentos, fontes, etc.) que são fruto desta busca ou incômodo.

As Fases de uma Obra

Quando analisamos a obra ou vamos a uma exposição de um artista em um museu ou exposição, ela geralmente é estruturada a partir das fases, ou momentos da vida deste artista.

Nestas fases, geralmente demarcadas por terceiros, vemos como a técnica (conjunto de habilidades) do artista evoluiu, quais eram seus momentos de vida, o contexto do artista em que estava inserindo, como isso impactou suas reflexões e produção e quais foram as fontes de inspiração e influência que o guiaram ou contribuíram na direção que seguiu.

Como empreendedores iniciantes, artistas iniciantes também começam copiando e têm um repertório restrito.

À medida que ele evolui, podemos ver sua técnica e visão sendo aprimorada pela prática, pelo contexto, por novas combinações, influências e experimentações, até que um traço próprio, ou mesmo a personalidade de sua art, começa a surgir e ficar mais clara e refinada fase após fase.

A profundidade da busca e das reflexões torna o artista e o empreendedor mais conscientes de si mesmo, do que quer criar, expressar e fazer repercutir.

A maestria gerada pela soma de sua dedicação em aprender, experiência, repertório e prática o tornam mais capaz e autoconfiante em reproduzir sua mensagem da maneira como a visualiza.

Ele já não copia tanto e, mesmo que aprenda e teste novas técnicas, está mais consciente e seguro sobre o seu estilo e as escolhas que faz sobre a forma daquilo que irá criar e expressar.

Se cursos, incubadoras, mentores e aceleradoras contribuem como fontes para ampliar repertório técnico e ferramental, a personalidade e traço de um empreendedor não podem ser acelerados artificialmente.

Esta consciência e maturidade do artista e empreendedor também acabam por influenciar e definir suas escolhas. Que produtos e serviços irá criar? Como e para quem irá oferecer? Quem serão seus parceiros e colaboradores? Que processos e cultura irá implantar? Qual o tamanho do negócio quer ter? Qual visão e mensagem quer expressar e de que forma? Faz sentido continuar ou é hora de mudar e partir para outra?

Por mais que até aqui o texto tenha tido um aspecto mais pessoal e individual, negócios geralmente são criados por mais de uma pessoa, e é a combinação da visão, aspirações, técnicas e personalidade destas pessoas que irão definir a cara, o jeito de fazer e o DNA da cultura e do negócio a ser criado. Cada pessoa que entra ou que sai da equipe irá ser influenciada e influenciar nas mutações deste mesmo DNA.

A beleza de ver o empreender como uma forma de arte na minha visão é o de dar a dimensão de uma obra ou conjunto de obras a ser construído, de negócios com uma visão, forma de expressão e mensagem para o mundo, de demonstrar que todos começamos copiando e aprendendo até que a busca e a prática nos tornem mais conscientes e capazes, e de que, ao invés de seguir jargões ou copiar técnicas, empreender é no fim do dia um exercício de liberdade, escolhas, criação e legado no curto tempo que temos chamado vida.

 

Rodrigo Brito é empreendedor, gerente de operações do Instituto Coca-Cola Brasil, co-fundador da Aliança Empreendedora, INK, WTT Brasil (World-Transforming Technologies) e Iniciativa Emerge.

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